Pela primeira vez em cinco anos o dia de hoje não é vivido com ansiedade, tristeza profunda ou quando a noite se aproxima com um nó na garganta e lágrimas que teimam em não sair.
Pela primeira vez é vivido sem relógio, sem contas de que há um, dois, três, quatro anos estaria com isto ou a sentir aquilo.
O que aconteceu? O medo, o terror, o pânico deram lugar ao amor, ao respeito, ao perdão.
No meu coração consigo sentir paz... finalmente, paz :)
Após cinco anos o relato quase completo que a memória vai-me traindo:
Logo de manhã, bem cedo partimos para a maternidade onde o nosso (ex) obstetra trabalha para uma consulta de rotina. Esperámos na sala de espera da urgência, observavamos divertidos as caras dos papás que iam sendo chamados para irem buscar a mala das grávidas que tinham entrado na salinha de urgência. Até que... chegou a minha vez.
Sem muitas perguntas um médica fez-me uma eco e enquanto eu perguntava pelo médico fez-me (pensava eu) o tal exame que toda a gente chama "toque". Mas não, ela não estava a fazer aquilo que eu pensava. Disse-me que já estava...eu sem perceber, perguntei "já está? O quê?". Informou-me que tinha colocado umas fitinhas para a indução do parto. Questionei ainda "Mas, está tudo bem?". A resposta foi seca e fria. Estava tudo bem mas eu tinha de me despachar para fazer as análises ao sangue e que fosse rápido que ela tinha mais que fazer.
A enfermeira lá me disse o que tinha de fazer. O marido foi buscar a mala e vesti o robe, chinelos e camisa de dormir e passei para a enfermaria.
Passei o dia a andar, subir e descer escadas para ver se a coisa andava. Tudo parado, nada de contrações. Lembro-me de ter almoçado, lanchado e jantado. Aí as contrações já começavam a sentir-se. O marido sempre pertinho de mim até que teve de sair, a hora da visita tinha terminado. Podia ficar no hall mas não na enfermaria. Mudou o turno e as contrações ficaram mais dolorosas. Pedi para ser observada e foi aí que tudo complicou. O médico achou que só um famoso toque não chegava e assim foram pelo menos dois ou três com direito a descolamento das membranas. Aí a dor foi insuportável, passou a ser contínua, sem intervalo. O marido ao ouvir os meus gritos durante a dita observação e choro após, entrou pelo corredor e amparou-me para voltar para a cama. Nenhum daqueles profissionais de saúde acreditou na minha dor. Mais tarde uma enfermeira tentou observar o estrago feito e não conseguiu pois eu tinha muitas dores e quase desfaleci a pedir-lhe desculpa pelas dores que sentia, pela bolsa que rompeu, pela minha existência. Levou-me para a cama na enfermaria partilhada com mais três mulheres e aí fiquei sem saber como sentir ou o que fazer pois a dor , o desespero, a solidão, o medo toldavam qualquer pensamento positivo que me fizesse reverter aquela situação.
É-me administrada um injeção para as dores que não fez qualquer efeito.
Ainda houve a tentativa de me observarem de novo, mas sem sucesso, a dor aumentava e era continua.
Sou levada para o bloco de partos onde ninguém me consegue observar pois a dor era insuportável. Decidem pela epidural. A dor vai desaparecendo e com ela a minha lucidez. Não me recordava do meu nome (lembro-me de ter pensado..como é possível!?), perco a consciência. Ouço muito ao longe " temos de ir para cesariana, o bebé parece que está em sofrimento".
E foi assim que dei por mim deitada numa mesa de cirugia e o meu filho nascia depois de tanta luta na minha barriga. Sem nunca termos autorizado qualquer intervenção, sem nunca termos tido oportunidade de dar opinião. Felizmente correu bem.
Este que deve ser um momento feliz e único não foi assim para nós naquele lugar. Foi depois no dia 21 de manhã quando consegui forças para saudar o meu filhote. Foi o nosso momento e nesse ninguém interviu ou então...tenho a certeza que lhes mordia ;)
E pela primeira vez em cinco anos o dia 20 não é vivido com rancor, com raiva, com dor.
Pela primeira vez consigo aceitar e perdoar o que vivemos.
Muita paz :)